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CDI or IPCA? Stable interest rates and falling inflation bring a ‘catch’ for fixed income*

Nas contas do mercado, os juros devem começar a cair a partir de 2026 e, mesmo assim, trocar os indexadores na renda fixa não é uma aposta tão óbvia quanto parece

Por Pedro Knoth , Valor Investe — São Paulo
18/09/2025 06h10  Atualizado há 2 semanas

A carteira de investimentos em renda fixa vive uma bifurcação. De um lado, os títulos indexados a 100% do CDI, como o Tesouro Selic, rendem 14,90% ao ano. Mas a expectativa é de que juros caiam a partir de 2026, derrubando a remuneração ao investidor. Do outro, leituras mais fracas de inflação também enfraquecem o retorno de investimentos lastreados à variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), como Tesouro IPCA+. No entanto, gestores profissionais vêm comprando mais dos títulos ligados ao índice de preços e mudando a carteira de seus clientes para capturar uma possível alta.

Especialistas defendem, assim, que o investidor comece a repensar a carteira de renda fixa antes que o mercado precifique totalmente a queda de juros adiante.

A palavra-chave dos gestores é prazo: o investidor pode ‘esticar’ os títulos da carteira se tiver estômago para aguentar a volatilidade de títulos prefixados ou atrelados ao IPCA+. Até porque o CDI deve deixar a rentabilidade atual de 14,90% ao ano para 12,40% em 2026, seguindo a estimativa de Selic de 12,50% do boletim Focus para o ano que vem.

Neste ano, o índice de títulos do Tesouro Prefixado da Associação Brasileira de Entidades do Mercado de Capitais e Financeiro (Anbima) com prazo superior a um ano sobe 14,75%, acima da cesta de títulos do Tesouro Selic, com ganho de 9,20%Em 12 meses, a situação se inverteo ativo indexado à Selic bate o prefixado, um estando em 13,11% e o outro a 10%.

Isso mostra que o mercado está se antecipando ao corte de juros para alocar em outras categorias de renda fixa. O investidor que chegar atrasado deixa para trás retornos atrativos, diz Marcelo Mattos, diretor de gestão de crédito privado do Banco Inter.

O prefixado pode apresentar maior rentabilidade, mas os títulos com taxa já contratada são os de maior risco na renda fixa. O investidor contrata a remuneração que vai receber, o que vale a pena somente se o Banco Central baixar o juros a um patamar inferior ao retorno do título. Se o BC começar a baixar os juros, por exemplo, e a inflação saltar, é bem mais provável que o investidor perca dinheiro com o prefixado, avisa Mattos.

Por outro lado, se o BC perseguir a meta de inflação de forma mais persistente, juros podem chegar a taxas menores do que o título prefixado. E aí o investidor ganha no mercado. Isso vale para CDBs, títulos do Tesouro, debêntures e outros ativos que podem ter taxa prefixada.

 

CDI ou IPCA? Para onde ir na renda fixa

 

Gestoras profissionais vêm trocando títulos na carteira de renda fixa para aproveitar a eminente queda de juros antes que ela aconteça. Mattos diz que a gestora está migrando os títulos de CDI+ (os pós-fixados) para IPCA+ (os indexados à inflação).

Nos fundos de clientes conservadores, o Inter vem acrescentando Tesouro IPCA+ em até 10% da carteira, ante 0% no início do ano. Nos fundos mais arrojados, esse percentual pode chegar até 70%.

No ano, os índices de títulos públicos híbridos da Anbima mostra que ativos ligados à inflação estão com desempenho abaixo do CDI. A cesta que compõe o IMAB-5, que responde por todos os títulos IPCA+ com prazos de até 5 anos, rende 6,35% ao ano, abaixo do CDI.

Estamos na migração (de CDI+ para IPCA+). Mais alocados em DI no momento, mas nos parece impossível que os juros reais [a taxa Selic descontando a inflação] continuem a 10% ao ano“, comenta Mattos.

Ativos de renda fixa atrelados à inflação podem ter meses de retorno negativo, aponta Natália Coura, diretora de distribuição da gestora SpartaEla aposta, no entanto, numa virada: uma vez que a Selic caia, a taxa de juros de ativos prefixados deve cair, e o investidor pode assegurar maiores rendimentos em títulos de crédito privado hoje. A taxa média dos títulos públicos em IPCA+ hoje está em 8%, enquanto o mesmo indexador no crédito privado tem taxas de 10,6%, na média.

Para a gestora da Sparta, isso seria o equivalente à comprar uma ação quando o preço cai. Ela defende que o investidor tenha, pelo menos, 20% da carteira alocada em renda fixa indexada à inflação.

O apetite para apostar mais no IPCA varia de acordo com o perfil do investidor, e Coura não sugere, desta forma, migrar para o indexador caso o investidor queira retornos rápidos e em questão de meses. Com prazos menores que 5 meses, não faz sentido sair do CDI mesmo. Para prazos até de 12 meses, vale pensar melhor numa carteira de IPCA+ e prefixado“, ela afirma.

Nos prazos, os especialistas recomendam investir em títulos do Tesouro e de crédito privado que tenham prazos de até 7 anos, no máximo. No piso, Mattos e Coura divergem: a diretora da Sparta prefere encurtar a janela para 6 anos no mínimo, enquanto o gestor do Banco Inter aponta para prazos a partir de 4 anos.

Para quem tem carteiras de renda fixa no curto prazo, Alexandre Freitas, diretor-executivo da administradora de fundos Oliveira Trust, defende que haja uma mudança na forma de remuneração sobre o CDI.

Ao invés de alocar em ativos que rendem um percentual do CDI, como na maioria dos CDBs negociados nos mercados primário e secundário, Freitas sugere a procura por títulos com retornos de uma taxa fixa mais o CDI, ou seja, trocar os pós-fixados pelos que tenham ao menos uma parte prefixada. “Quando o investidor acredita que os juros vão cair, ele pode travar uma taxa que faz diferença no saldo final”, aponta. “Assim, ele consegue ‘fixar’ a taxa. Por exemplo, um CDB com rendimento de 120% do CDI não vale a mesma coisa que um CDI+ 1,20% num ciclo de queda dos juros”, conclui o diretor da Oliveira Trust.