Digital fixed income promises higher returns, but investors need to look beyond the rate
Especialistas alertam que facilidade de acesso a recebíveis tokenizados pode esconder riscos, enquanto CVM discute mudanças nas regras do mercado
Por Laelya Longo, Valor Investe — São Paulo
20/04/2026 06h00 Atualizado 22/04/2026 01h11
O mercado de renda fixa digital cresce rapidamente no Brasil, puxado pelo avanço dos recebíveis tokenizados – modelo no qual empresas transformam valores a receber em ativos digitais para captar recursos. Mas muita calma nessa hora, investidor. Apesar da promessa de ampliar o acesso e oferecer retornos mais elevados, especialistas alertam que a facilidade de investir pode esconder riscos. Na prática, semelhantes, ou até maiores, que os do mercado tradicional.
A expansão recente ajuda a explicar o interesse. O volume de operações vem acelerando e pode chegar a R$ 7 bilhões em 2026, com crescimento anual estimado entre 40% e 50%, segundo Relatório Renda Fixa Digital 2026, elaborado pela consultoria de inteligência financeira DeFin Global.
Só em 2025, mais de 80% das emissões, que ultrapassaram os R$ 3 bilhões, ficaram concentradas no segundo semestre, indicando que o mercado ganhou tração mais recentemente. Ao mesmo tempo, o valor médio das operações aumentou, passando de R$ 2,3 milhões para R$ 5,6 milhões, sinalizando uma evolução de ofertas menores e mais experimentais para estruturas mais robustas, também de acordo com o levantamento.
Na prática, a tokenização permite que empresas — principalmente de pequeno e médio porte — captem recursos diretamente com investidores, sem depender de bancos ou grandes estruturas do mercado de capitais. Do outro lado, o investidor encontra uma alternativa à renda fixa tradicional, com potencial de retorno maior.

“Existe um estigma de que tokenização é criptomoeda e não é”, explica Arthur Coelho, fundador da plataforma Tokeniza. “O token não é o ativo, é o instrumento. Nesse caso, são contratos inteligentes que estabelecem todos os detalhes de uma emissão.”
“A missão do mercado de capitais é conectar quem precisa de dinheiro com quem quer investir. Existia uma lacuna de empresas médias que não eram bem atendidas, e a tokenização ajuda a preencher esse espaço”, diz Fabrício Tota, diretor de novos negócios do Mercado Bitcoin (MB).
Segundo ele, a tecnologia permite estruturar operações mais rápidas e baratas — em alguns casos, em menos de dois meses, contra até seis meses no modelo tradicional — reduzindo intermediários e aumentando o retorno potencial para o investidor.
Mas é justamente essa simplicidade na distribuição que acende o sinal de alerta. “O problema é que o material de divulgação muitas vezes fica muito focado na rentabilidade. O investidor vê 20% ao ano e compra, achando que está protegido só porque tem um lastro por trás”, afirma Alexandre Freitas, sócio e diretor-presidente da Oliveira Trust.
“Essa rentabilidade é possível porque a tokenização elimina intermediários”, afirma Coelho. “Já houve caso em que o emissor disse que podia pagar 4,5% ao mês, mas não aceitamos. Seria impossível convencer o mercado de que não era golpe.”
Nem todo “lastro” é igual
Na prática, esse “lastro” (ou seja, o ativo que dá suporte à operação, como um fluxo de pagamentos futuros) pode variar bastante em qualidade. E nem sempre há uma estrutura robusta por trás para garantir que aquele direito será efetivamente honrado.
Do ponto de vista jurídico, o desafio começa antes mesmo da análise de risco. Para Erik Oioli, sócio de Mercado de Capitais do VBSO Advogados, ainda há uma dificuldade básica de classificação desses ativos, o que pode confundir o investidor. “Muitas ofertas usam termos conhecidos, como CRI ou CRA, mas na prática são estruturas diferentes. Isso dificulta a compreensão do que, de fato, está sendo comprado”, afirma.
Segundo ele, a ausência de padronização e de enquadramento claro dentro das regras do mercado de capitais pode levar o investidor a assumir riscos sem perceber — especialmente em operações que não seguem o mesmo nível de exigência das ofertas tradicionais.
Isso porque, diferentemente de instrumentos mais conhecidos, como CRIs e CRAs (títulos ligados aos setores imobiliário e do agronegócio), muitas operações tokenizadas envolvem ativos menos padronizados — como recebíveis de projetos específicos, precatórios ou até royalties artísticos.
“Quem está olhando se a garantia está correta? Se está formalizada? Quando o investidor compra direto numa plataforma, pode estar assumindo um risco muito alto sem perceber”, diz Freitas.
Regulação evolui, mas lacunas permanecem
A própria Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já reconhece essas limitações e discute mudanças no modelo. Hoje, a maior parte das ofertas ocorre dentro da chamada Resolução 88, que regula o crowdfunding (os contratos de investimento e captação coletiva) no mercado de capitais.
A regra impõe limites e proteções — como limite de captação de R$ 15 milhões por ano e investimento máximo de R$ 20 mil por ano para investidores não qualificados (aqueles que possuem menos de R$ 1 milhão em aplicações) — e exige a divulgação de informações padronizadas sobre os riscos, além de um termo formal de ciência por parte do investidor.
Mas há uma restrição importante: não existe um mercado secundário estruturado. Ou seja, quem compra esses ativos pode ter dificuldade para vender antes do vencimento.
Na prática, a negociação ocorre de forma limitada, em ambientes que funcionam mais como um “mural” de interesse entre compradores e vendedores, sem garantia de liquidez — o que pode levar a perdas ou descontos relevantes no valor do investimento, segundo o relatório da DeFin. “Do ponto de vista da tecnologia, o mercado secundário está pronto. Mas hoje ele é proibido pela regulação”, diz Tota.
Diante disso, a CVM colocou em consulta pública uma proposta de revisão da CVM 88, com o objetivo de ampliar os limites de captação para R$ 25 milhões/ano e adaptar o modelo ao crescimento das emissões — especialmente as tokenizadas. Em paralelo, na Agenda Regulatória 2026, a autarquia vai colocar em discussão o Projeto 135 Light, a revisão das Resoluções CVM 135 e 31 com foco em mercados menores e tokenização, justamente para dar mais liquidez e escala a essas operações.
Outro ponto sensível é a estrutura de proteção. Em operações tradicionais, como CRIs e CRAs, há a figura do agente fiduciário — responsável por representar os investidores e fiscalizar o cumprimento das obrigações. Nas ofertas menores, como as tokenizadas, isso nem sempre está presente. “Sem alguém acompanhando a operação, o investidor pode ficar desprotegido. Se der problema, quem vai cobrar? Quem representa os investidores?”, questiona Freitas.
Para Oioli, esse é um dos pontos que precisam evoluir para que o mercado ganhe escala com segurança, junto com maior clareza na classificação dos ativos e no enquadramento regulatório.
Enquanto isso não acontece, especialistas recomendam que o investidor comece pelos ativos mais próximos do mercado tradicional — como CCBs (cédulas de crédito bancário) ou estruturas mais conhecidas — e só depois avance para operações mais complexas.
Também é essencial olhar além da rentabilidade prometida. “Primeiro vem o lastro, depois a qualidade do crédito, as garantias, a estrutura da operação. A rentabilidade deveria ser a última coisa a ser analisada”, diz Freitas.
Para Tota, o momento é de amadurecimento do mercado — tanto para investidores quanto para emissores. “A gente precisa parar de olhar só se tem FGC [Fundo Garantidor de Créditos] e começar a entender o que tem dentro da operação. Nem todo produto com garantia é seguro, e nem todo produto sem garantia é ruim”, afirma.
“O investidor tem de olhar para a essência do ativo. Não é porque é token que o produto precisa é bom”, reforça Daniel Coquieri, presidente da Liqi. “Token é o instrumento criado em uma nova tecnologia. O produto, o ativo, tem que ter qualidade, assim como no mercado tradicional.”
No fim das contas, a tokenização não elimina os riscos do mercado financeiro — apenas muda a forma como eles aparecem. E, em um ambiente ainda em construção, entender o que está por trás de cada operação é o que faz a diferença entre oportunidade e armadilha.
