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Custo do capital ainda desafia a ampliação do acesso ao mercado

Em 2025, o mercado de capitais brasileiro atingiu seu maior volume histórico de captação, com R$839 bilhões em emissões. No mesmo período, o estoque de crédito privado ultrapassou pela primeira vez a carteira bancária como principal fonte de financiamento corporativo do país. O dado confirma uma transformação estrutural na forma como as empresas se financiam no Brasil, mas também abre uma questão central. Quem conseguiu participar desse crescimento?

A pergunta ganhou ainda mais relevância depois da reunião do Copom de agosto de 2026, quando a Selic foi reduzida de 14,25% para 14% ao ano. O corte indica uma mudança marginal no ciclo, mas mantém o custo de capital em patamar elevado. Para o mercado de capitais, esse detalhe importa porque a taxa básica influencia diretamente a viabilidade econômica das emissões, sobretudo fora do universo dos grandes emissores.

Ao longo de mais de três décadas administrando operações nesse setor, acompanhei diferentes regimes de juros e seus efeitos sobre companhias, investidores e estruturas de crédito. Essa vivência me levou a uma conclusão simples: volume de captação e desenvolvimento de mercado podem caminhar em ritmos muito diferentes.

Grandes empresas, emissores com rating estabelecido e projetos de infraestrutura com benefício tributário conseguem captar mesmo em ambiente de Selic elevada. Para esse grupo, juros acima de 14% podem ser acomodados na estrutura financeira da operação. Entretanto, para uma maioria parcela expressiva do middle market, a realidade é outra.

Apesar do elevado volume captado, apenas 72 empresas acessaram o mercado de dívida pela primeira vez em 2025. Isso sugere que o avanço ainda se concentra em um grupo restrito diante do tamanho da economia brasileira. Há milhares de companhias de médio porte que poderiam se beneficiar de acesso direto ao capital para financiar sua expansão, investimentos produtivos e modernização operacional.

Para uma empresa com faturamento entre R$ 100 milhões e R$ 500 milhões, emitir dívida com o CDI em patamar elevado pode tornar inviável boa parte dos projetos. Mesmo com um spread razoável, o custo final limita a decisão antes de ela chegar à mesa do estruturador. Nessa circunstância, o mercado privilegia quem já possui escala, histórico, governança e capacidade financeira para absorver a taxa.

É a partir dessa leitura que enxergo uma faixa de juros em que o mercado de capitais brasileiro parece reunir melhores condições para se desenvolver com mais equilíbrio. Pela minha experiência, esse intervalo tende a ficar entre 6% e 12% ao ano. A tese considera a relação entre volume, ampliação de acesso, diversidade de emissores, e qualidade das estruturas de crédito e interesse dos investidores.

Quando a taxa fica muito abaixo desse intervalo, como ocorreu em 2020, com a Selic a 2% ao ano, surge outro tipo de distorção. Investidores migram para outros investimentos, como a renda variável ou as estruturas de multimercado (renda fixa + renda variável), mas não o crédito privado não pela qualidade das estruturas, mas pela necessidade ausência de alternativas de investimento mais rentáveis. Outro ponto, é que a liquidez abundante financia operações que, em condições normais, exigiriam mais rigor na análise de risco. O ciclo de 2022 e 2023, com o aumento expressivo de eventos de crédito no mercado, mostrou onde parte dessas fragilidades estava acumulada.

Quando a taxa supera 12%, o mercado pode continuar avançando, como mostrou 2025. O problema é a composição desse avanço. A substituição do crédito bancário ocorre com mais força entre companhias que já possuem acesso estabelecido, enquanto muitas empresas da economia real permanecem distantes dessa fonte de financiamento, ou simplesmente captam recursos para “rolar dívidas anteriores já contraídas”.

Entre 6% e 12% ao ano, observamos uma dinâmica mais equilibrada. O spread do crédito privado representa um diferencial efetivo para o investidor, sem depender de um cenário de juro real comprimido. Ao mesmo tempo, o custo de capital se torna mais competitivo para um número maior de empresas e setores. A decisão de alocação passa a considerar risco, retorno, estrutura e qualidade do emissor com mais racionalidade.

O recorde de 2025 ajuda a qualificar essa discussão. O mercado brasileiro mostrou resiliência porque vetores estruturais seguem avançando independentemente do ciclo de juros. A desintermediação bancária, os avanços regulatórios promovidos pela CVM e a ampliação da base de investidores continuam sustentando uma mudança relevante na arquitetura de financiamento do país.

O desafio agora é transformar crescimento em desenvolvimento mais amplo. Um mercado capaz de incluir o middle market, abrir espaço para novos setores e financiar projetos produtivos em diferentes regiões depende de um custo de capital compatível com essa ambição. O Brasil já provou que consegue bater recordes de captação. A próxima etapa exige uma pergunta mais difícil. Quantas empresas terão condições reais de acessar esse mercado?

*José Alexandre Freitas é CEO da Oliveira Trust, plataforma de infraestrutura de serviços fiduciários com mais de R$ 2 trilhões em operações ativas no mercado de capitais brasileiro.