Juros e incerteza ditam fluxo
Renda fixa concentra a demanda, enquanto crédito privado, ações e multimercados estão subordinados à questões como geopolítica, eleições e cenário fiscal para avançar
Na Oliveira Trust, as incertezas externas e a questão fiscal brasileira exigiram maior rigor na avaliação do crédito, diante do crescimento de emissões de empresas de qualidade inferior e do uso de garantias mais complexas. Ao mesmo tempo, os fundos estruturados e os serviços especializados mantiveram forte expansão, apoiados pelo uso intensivo da tecnologia.
Fundos estruturados – A evolução do crédito privado tornou-se mais visível nos últimos 12 meses. A pressão compradora sobre recebíveis, como CRI e CRA, cresceu, acompanhada por emissões mais fortes de empresas de middle market interessadas em alongar o perfil de suas dívidas. A qualidade média desses emissores, porém, diminuiu. “Isso exigiu maior atenção e mais garantias, em alguns casos inclusive garantias exóticas, que são estruturas mais complexas e sofisticadas que passaram a ser usadas no mercado”, afirma José Alexandre Freitas, CEO da Oliveira Trust.
Nos FIIs, segmento em que a Oliveira Trust possui 5% de market share, as empresas do setor imobiliário passaram a usar como lastro unidades que não conseguiram vender. “As unidades são jogadas no FII para dar liquidez à própria empresa e não para obter capital que irá financiar novos empreendimentos”, explica Freitas.
O executivo vê riscos tanto na manutenção dos juros elevados quanto em uma redução excessivamente rápida da Selic em 2027. “As empresas não investiram o suficiente em estoques e isso pode gerar inflação. Nesse caso os papéis de dívida que foram captados indexados à inflação podem se tornar um problema se o mercado aquecer muito rápido”, diz.
Na Oliveira Trust, todas as novas operações passam por um “comitê de propostas”, composto por pessoas físicas e um membro de inteligência artificial. A instituição recebe mais de mil propostas de empresas por ano. Uma operação é aprovada se obtiver cinco votos favoráveis e rejeitada se receber dois votos negativos. A proporção de propostas recusadas, que ficou entre 8% e 10% no segundo semestre de 2025, subiu para 15% no primeiro semestre de 2026, refletindo o aumento de operações consideradas ruins ou com risco desproporcional.
Freitas espera que esse ambiente persista pelos próximos 12 meses. Os casos de recuperação judicial, segundo ele, demonstraram a eficiência das proteções dos FIDCs. “Em muitas operações, os FIDCs continuaram a operar mesmo com a recuperação judicial ou pagaram tudo aos investidores. São fundos que têm capacidade de se blindar”, ressalta.
Entre os setores que exigem mais atenção está a construção civil. “Na construção civil, é preciso considerar o custo alto para o comprador e as empresas que estão com os custos represados, o que pode ser uma fonte de problemas. Mas os setores automobilístico e o agronegócio também tendem a sofrer um pouco mais nos próximos 12 meses”, afirma Freitas.
A Oliveira Trust atua ainda em uma terceira frente do mercado de capitais, a de serviços especializados, como custódia e operações sindicalizadas com bancos, que apresentou o melhor desempenho do negócio no último ano. O resultado esteve ligado ao uso intensivo de tecnologia. “Temos 80 desenvolvedores mas o nosso investimento mais importante foi em ferramentas e agentes de Inteligência Artificial para a busca de informações”, explica.
Com essas ferramentas, os administradores deixaram de concentrar o trabalho na busca de dados em bureaus de crédito e outras fontes e passaram a dedicar mais tempo à análise de situações de estresse. Antes da IA, uma multiplicação simultânea dos pedidos de recuperação judicial exigiria aumento proporcional da equipe. Hoje, segundo Freitas, seria possível lidar com 30 casos hipotéticos como se fossem apenas cinco.
A tecnologia também é usada no monitoramento de FIDCs multicedentes e multisacados. “Queremos estar preparados para um aumento de volumetria nos FIDC porque um fundo com patrimônio acima de R$ 2 bilhões já é de alta volumetria”, afirma. A participação dos fundos de cartão de crédito e de crédito consignado também cresce, e a oferta aumenta à medida que os juros caem e aceleram a portabilidade para outras instituições.
“Ao longo dos próximos 12 meses estaremos muito melhor em relação às decisões de investimentos do que estávamos em setembro de 2025 porque o mercado já sabe que o juro cairá de forma mais gradativa”, diz Freitas. Para ele, será necessário manter atenção à qualidade das empresas emissoras, mas existe um “realinhamento de astros” e a possibilidade de um ano próspero, caso os juros continuem recuando gradualmente.